Quem já passou um dia inteiro trabalhando em uma sala sem janelas conhece uma sensação difícil de traduzir. As horas avançam, mas o ambiente parece permanecer igual. A luz das nove da manhã pouco se diferencia daquela do fim da tarde e, mesmo quando há iluminação suficiente para executar as tarefas, pode faltar algo na experiência do espaço: uma referência mais clara da passagem do tempo, uma relação mais próxima com o exterior e uma dinâmica luminosa que acompanhe o ritmo do dia.
Essa percepção ajuda a abrir uma discussão que vem ganhando profundidade nos estudos sobre iluminação. Durante muito tempo, boa parte da avaliação luminotécnica esteve concentrada na quantidade de luz disponível sobre o plano de trabalho. Esse dado continua sendo importante, mas não conta toda a história. Também importa observar a luz que chega aos olhos e compreender de que maneira ela participa da experiência visual e dos estímulos recebidos pelo organismo ao longo do dia.
Foi a partir desse olhar que a arquiteta e pesquisadora Cristiane Martins Baltar Pereira desenvolveu a tese de doutorado A influência das janelas falsas na saúde dos usuários em ambientes de escritórios, defendida em 2026 na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo, sob orientação do professor Paulo Sergio Scarazzato. A pesquisa investigou o potencial de uma janela falsa, desenvolvida para reproduzir algumas características associadas à luz do dia, como estratégia complementar em escritórios sem acesso à iluminação natural.
O estudo abre uma conversa especialmente interessante para arquitetura e iluminação: se nem todos os espaços podem contar com uma janela convencional, de que forma o projeto pode buscar uma experiência luminosa mais cuidadosa para quem permanece nesses ambientes por várias horas?
Uma pesquisa que olha além da mesa
Em escritórios, é comum avaliar a iluminação a partir dos níveis disponíveis sobre mesas e superfícies de trabalho. Essa análise ajuda a garantir condições adequadas para atividades como leitura, escrita e uso de telas, mas a experiência humana com a luz não acontece apenas no plano horizontal.
A luz que alcança os olhos também merece atenção. Por isso, a pesquisa ampliou a análise para além da iluminância sobre a mesa e observou aspectos relacionados ao campo visual dos participantes, às métricas circadianas, ao conforto, ao bem-estar e à percepção do ambiente.
O estudo foi realizado em três salas de trabalho em Curitiba, todas dependentes de iluminação elétrica durante o dia. A pesquisadora instalou, de maneira sequencial, uma janela falsa nesses ambientes e comparou as condições antes e depois da intervenção. Foram utilizados diferentes recursos de avaliação, incluindo medições luminotécnicas, métricas relacionadas ao estímulo circadiano, simulações computacionais, questionários e registros ligados à percepção dos participantes e ao sono.
Para quem deseja conhecer todos os detalhes metodológicos e acompanhar o desenvolvimento da investigação diretamente na fonte, a pesquisa está disponível no Repositório da Universidade de São Paulo.
Quer se aprofundar na pesquisa?
A tese completa oferece uma leitura muito mais detalhada sobre o desenvolvimento do protótipo, as medições realizadas, os critérios adotados, os questionários aplicados e as reflexões que surgiram a partir dos resultados. Para arquitetos, lighting designers, pesquisadores e profissionais interessados na relação entre iluminação, saúde e qualidade dos espaços, é uma oportunidade de acessar o estudo em sua íntegra e compreender melhor tanto os achados quanto suas limitações. Acesse o PDF completo da tese clicando aqui.
Como funcionava a janela falsa
O protótipo utilizado na pesquisa foi desenvolvido para reproduzir algumas características relacionadas à experiência de uma janela. A estrutura recebeu uma tela tensionada impressa com uma paisagem composta por elementos urbanos e naturais, enquanto diferentes temperaturas de cor de LED eram controladas por automação na parte interna.
Ao longo do expediente, a iluminação variava em intensidade e tonalidade, acompanhando uma dinâmica inspirada no comportamento da luz natural durante um dia de inverno em Curitiba. Nos períodos iniciais e finais do dia, predominavam tonalidades mais quentes; nas horas centrais, a iluminação assumia temperaturas de cor mais elevadas.
Essa mudança acrescentava ao espaço uma dimensão que costuma desaparecer em ambientes completamente enclausurados: a percepção de que o tempo está passando. A proposta, portanto, não estava apenas em acrescentar uma superfície iluminada à parede, mas em observar como uma intervenção com luz, imagem e variação temporal poderia modificar a experiência daquele ambiente.
O que mudou quando a janela entrou em cena
Antes da intervenção, parte dos postos de trabalho já apresentava níveis de iluminação adequados para o desempenho das tarefas visuais. Quando a análise se deslocava para a luz que chegava verticalmente aos olhos, porém, o cenário apresentava diferenças importantes.
Após a instalação da janela falsa, houve aumento da iluminância vertical em praticamente todos os postos avaliados. Um dos indicadores analisados foi o chamado estímulo circadiano (CS). A proporção de postos que atingia ou ultrapassava o valor de referência de 0,3 passou de 28% para 71%, enquanto a mediana do indicador aumentou de 0,20 para 0,31.
Mais importante do que observar esses números isoladamente é perceber o que eles ajudam a revelar: um ambiente pode oferecer luz suficiente para a execução de uma tarefa e, ainda assim, apresentar condições bastante diferentes quando a análise considera o campo visual de quem permanece naquele espaço durante horas.
Os questionários aplicados também apontaram mudanças percebidas pelos participantes, com resultados relacionados a bem-estar, conforto visual e redução de afetos negativos associados ao ambiente. Os relatos subjetivos ligados à qualidade do sono também apresentaram melhora. Já os dados objetivos obtidos por actigrafia foram mais heterogêneos e individuais, motivo pelo qual a própria pesquisa ressalta que não é possível estabelecer uma relação causal entre a intervenção e alterações fisiológicas estáveis no sono.
Esse cuidado na interpretação dos resultados é importante. A pesquisa tem caráter exploratório, trabalha com uma amostra reduzida e reconhece limitações relacionadas ao número de participantes, às diferenças de posicionamento nos ambientes e a variáveis da rotina que não puderam ser totalmente controladas. Em vez de oferecer respostas definitivas, o estudo abre caminhos para novas investigações e amplia a discussão sobre a qualidade luminosa em espaços de trabalho sem janelas.
Da mesa aos olhos: uma nova forma de observar a luz
Talvez uma das reflexões mais interessantes do estudo esteja justamente nessa mudança de perspectiva. Quando pensamos em iluminação, é comum perguntar se há luz suficiente sobre a superfície de trabalho. A pesquisa acrescenta uma segunda questão: quanto dessa luz está efetivamente chegando aos olhos de quem utiliza o ambiente?
Essa diferença amplia a maneira de interpretar espaços enclausurados. Superfícies verticais luminosas, composição do campo visual, distribuição da luz e variações ao longo do dia passam a ganhar relevância ao lado dos parâmetros tradicionais utilizados em projetos luminotécnicos.
A tese também discute situações em que um ambiente pode atender às necessidades visuais da tarefa e, ao mesmo tempo, oferecer um estímulo luminoso limitado ao sistema não visual. Isso não significa abandonar critérios já consolidados de projeto, mas complementar a análise e considerar a experiência luminosa de maneira mais ampla.
Uma estratégia complementar, não uma substituição
Outro aspecto importante da pesquisa está na forma como a janela falsa deve ser compreendida. A intervenção não substituiu o sistema de iluminação existente nem pretendeu reproduzir integralmente tudo aquilo que uma janela natural oferece.
Nas simulações realizadas, os melhores resultados surgiram justamente quando diferentes estratégias trabalharam de forma conjunta. A janela falsa acrescentou luz vertical, variação temporal e uma referência visual externa a um ambiente que não possuía abertura natural, funcionando como uma estratégia complementar de qualificação do espaço.
Essa nuance é especialmente relevante para o projeto. Criar uma superfície luminosa não significa reproduzir artificialmente toda a complexidade da luz natural, mas reconhecer uma limitação arquitetônica e explorar recursos capazes de melhorar parte da experiência de quem utiliza aquele ambiente.
Há também uma dimensão subjetiva nessa relação. Alguns participantes relataram sensação de maior clareza, ânimo e referência da passagem do tempo. A própria pesquisa, no entanto, reconhece que o experimento não foi estruturado para separar com precisão quanto dessas percepções estava relacionado à luz e quanto poderia estar associado à presença da paisagem impressa. É justamente nesse tipo de questão que novos estudos poderão avançar.
A Alumiframe como parceira técnica da pesquisa
Estivemos presentes entre as parceiras técnicas da pesquisa, contribuindo para a realização dos estudos experimentais e para o desenvolvimento da intervenção utilizada nos ambientes avaliados. No protótipo, a Alumiframe esteve relacionada à estrutura e à tela tensionada empregada na janela falsa, permitindo integrar iluminação e imagem em uma mesma superfície. A tela contribuía para a difusão da luz e para a presença visual da paisagem impressa, tornando possível trabalhar esses elementos de maneira conjunta.
O desenvolvimento também trouxe observações técnicas importantes. A profundidade da estrutura e o espaçamento das fitas de LED foram considerados para favorecer uma iluminação mais contínua e evitar que os pontos luminosos se tornassem aparentes através da superfície. Os testes mostraram ainda que a impressão pode interferir no comportamento da luz, incluindo alterações na temperatura de cor correlata medida após sua passagem pela tela impressa.
Para projetos que trabalham simultaneamente com imagem e iluminação, esse é um lembrete valioso: material, impressão, distância da fonte luminosa e características da luz precisam ser considerados como partes de um mesmo sistema, e não como decisões isoladas.
Quando a superfície luminosa passa a fazer parte da arquitetura
A pesquisa também oferece uma reflexão que pode ser levada para além do ambiente experimental. Superfícies luminosas amplas e uniformes podem assumir um papel interessante quando são concebidas desde o início como parte do projeto luminotécnico, especialmente em espaços que não recebem iluminação natural.
A posição da superfície dentro do campo visual, sua intensidade, a temperatura de cor e a relação com a iluminação geral influenciam diretamente a maneira como essa presença será percebida. Quando esses elementos são trabalhados em conjunto, a luz deixa de aparecer apenas como recurso técnico e passa a participar da arquitetura, da atmosfera e da experiência do ambiente.
É nesse contexto que as telas tensionadas podem ampliar o repertório de projeto. Elas permitem trabalhar planos luminosos contínuos, superfícies impressas e diferentes composições com leveza visual, criando novas possibilidades quando a arquitetura existente impõe limitações ou quando a proposta pede uma iluminação mais integrada ao espaço.
Projetar para quem está do lado de dentro
Talvez essa seja uma das reflexões mais valiosas deixadas pela pesquisa: um espaço iluminado não é vivido apenas pelos valores registrados nos instrumentos de medição. Ele é percebido por pessoas que olham ao redor, acompanham mudanças de tonalidade, sentem a passagem das horas e constroem sua relação com o ambiente ao longo do dia.
Quando a luz natural não pode entrar pela arquitetura, o projeto ainda pode buscar maneiras mais cuidadosas de reconstruir parte dessa experiência. A tese da USP não encerra essa discussão. Seus resultados apontam possibilidades, revelam limitações e deixam perguntas importantes para futuras pesquisas.
Para arquitetura e iluminação, isso já representa um convite: olhar menos apenas para a quantidade de luz disponível e observar com mais atenção como essa luz chega às pessoas e participa da experiência do espaço. Se você está desenvolvendo um ambiente sem iluminação natural e deseja explorar superfícies luminosas integradas à arquitetura, nossa equipe pode ajudar a avaliar as possibilidades de aplicação das telas tensionadas do seu projeto.